New York, New York (exorcizando o 11 de Setembro)

Nova Iorque é uma das cidades da minha vida. Embora nunca lá tenha posto os pés, os filmes de Woody Allen e os livros de Paul Auster permitiram-me conhecê-la melhor do que algumas das cidades por onde já passei. É uma cidade europeia na sua essência, como o são também Filadélfia, Seattle ou São Francisco – não a típica megalópolis americana como Los Angeles, Chicago ou Dallas -, mas com uma escala desconhecida na Europa. É uma cidade progressista, aberta, moderna. Uma das cidades da minha vida, ainda antes de a visitar.
Por tudo isto, o 11 de Setembro de 2001 tocou-me de perto. Não foi um ataque bárbaro numa cidade distante; não o senti com a frieza e distância de um terramoto num país asiático… Foi uma cicatriz cortada no meu mundo, desfigurando a face conhecida de uma cidade que vislumbro quase diariamente. E, claro, foram quatro mil inocentes mortos.
Encontrava-me a viver no estrangeiro à data dos ataques. Talvez por isso, pensei: “Podia ter sido Lisboa”. Instintivamente, naquela tarde de trabalho interrompida pelo SMS recebido da minha mãe com a notícia do avião a embater na primeira torre do World Trade Center (”Parece que se despenhou um avião em Nova Iorque”, recordo vagamente as palavras que li, atónito), procurei notícias online não nos locais evidentes – cnn.com, nytimes.com, bbc.co.uk… – mas no publico.pt. Recordo-me que todos esses sites se encontravam sobrecarregados, assegurando exclusivamente os “serviços mínimos” que permitiam ir acompanhando – apenas em texto – o rápido evoluir dos acontecimentos. A surpresa inicial dava lugar ao choque – não era só Nova Iorque, era também Washington, a Pensilvânia… Imaginava os céus americanos sem um único avião no ar, vislumbrava o caos nos aeroportos, estações de comboio, no metro em Manhattan… Era um mundo à beira de um ataque de nervos.
As imagens que vi até à exaustão nessa noite, passada quase em claro junto da televisão, permitiram-me finalmente compreender a enormidade do que se tinha passado. Mas nada me preparou para a resposta da administração norte-americana: disparando em todas as frentes, invadiram o Iraque e o Afeganistão, ameaçaram o Irão e a Coreia do Norte, multiplicaram o seu apoio ao estado terrorista de Israel, esqueceram a causa palestiniana… Cinco anos depois, o mundo é um lugar ainda menos seguro do que na tarde daquela fatídica terça-feira: os responsáveis máximos pelos ataques continuam à solta, o número dos seus seguidores multiplica-se exponencialmente com cada discurso do presidente Bush, cada raide aéreo israelita, e não conseguimos evitar a repetição da barbárie em cidades (ainda) mais próximas como Londres e Madrid. Para já não falar no tormento em que se tornou viajar de avião – até 2001 era um prazer! -, com todas as formalidades de segurança e inerentes atrasos.
Este não é o mundo que eu quero deixar à minha filha. Se o 11 de Setembro não serviu para mais nada, pelo menos que sirva para cada um de nós reflectir na sua relação com os outros – usem eles turbante, burka ou um boné de basebol.
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Está a ler “New York, New York (exorcizando o 11 de Setembro)”, uma entrada do Café da Manhã
- Publicado em
- 11.09.06 às 13:42
- Categoria(s):
- Lá fora, Solidariedade


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