Os Jogos da vergonha (ou porque admito que sou um vendido)






Começam daqui a 48 horas em Pequim os Jogos da vigésima-nona Olimpíada. Aqueles que ficarão na História como os da consagração do poderio económico da China – o único motivo plausível para a comunidade internacional conceder a este país a organização de um evento deste calibre é (paradoxalmente, dada a natureza comunista do seu regime) o facto de ser o maior mercado mundial -, mas que deveriam na verdade ficar para a posteridade como os Jogos da vergonha. Senão vejamos: vão decorrer numa das cidades mais poluídas do mundo, capital de um país que é reconhecido como o campeão mundial da poluição, recusando-se a aceitar quaisquer metas ou standards aprovados pela comunidade internacional (neste aspecto, só têm rival nos Estados Unidos, que no entanto estudam actualmente a adesão ao Protocolo de Quioto). Decorrem num dos poucos países do mundo que consegue ser simultaneamente condenado por organizações como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch, a Repórteres sem Fronteiras, a Greenpeace ou a PETA. Um país que executa anualmente 8.000 pessoas, em que as autoridades praticam a tortura sobre os detidos de forma recorrente, que viola sistematicamente os mais elementares Direitos Humanos, que ocupa pela força um país étnica e culturalmente diverso como é o Tibete, que censura os meios de comunicação e o acesso à Internet, que persegue bloggers e jornalistas, um país em que mesmo potentados tecnológicos internacionais (ou especialmente estes) – como a Yahoo e a Google – se vêem obrigados a colaborar com as autoridades e auto-censurar os seus conteúdos. Levar o movimento olímpico à China é pactuar com massacres como o da Praça de Tiananmen, pactuar com a barbárie no Darfur, ignorar o tratamento cruel e degradante sobre os animais, fechar os olhos às políticas forçadas de controlo da natalidade, à exploração desenfreada e aos atentados ambientais perpretrados pelas empresas chinesas no continente africano e ao dumping económico que invade as prateleiras das lojas do mundo ocidental e tira do mercado os produtores desse mesmo continente.
Daqui a quinze dias, a China terá vencido a maioria das medalhas em disputa nestes Jogos. O Tibete continuará a aspirar a uma longínqua recuperação da sua independência, mais de vinte cidadãos chineses continuarão a ser assassinados diariamente pelo seu próprio Estado (quantos serão executados durante os Jogos??), mas o mundo aplaudirá o sucesso do regime de Pequim e desviará o olhar para Londres 2012.
Dito isto, vou ligar a televisão e deleitar-me com duas semanas do melhor que o desporto nos pode oferecer. Porque sobre os meus vinte anos, sobre a idade em que acreditava piamente em boicotes e bloqueios, já passaram quinze anos. Porque, como o resto do mundo, sou um vendido. Mas dentro do peito a revolta morder-me-á a consciência durante estes quinze dias, e só sorrirá quando alguns – poucos, muito poucos, certamente – atletas tiverem a dignidade de levantar a camisola deixando transparecer uma mensagem pró-Tibete, pró-Direitos Humanos, pró-liberdade. Eu escrevi um post sobre a hipocrisia do mundo e do movimento olímpico – e vocês?
Tags: [China | destaques | Direitos Humanos | Jogos Olímpicos]Sobre esta entrada
Está a ler “Os Jogos da vergonha (ou porque admito que sou um vendido)”, uma entrada do Café da Manhã
- Publicado em
- 05.08.08 às 22:52
- Categoria(s):
- Desporto, Solidariedade


9 comentários
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