RSS

Justiça ao fim de 38 anos

No dia em que visitei Derry, percebi que dificilmente seria capaz de ir a Auschwitz, Sabra-Chatila ou tantos outros “campos da morte”: locais onde, tal como na cidade norte-irlandesa, a passagem da morte deixou um rasto palpável.

O ano de 1972 foi o mais sangrento de mais de três décadas de violência sectária na Irlanda do Norte: saldou-se em 496 mortes, 258 das quais de civis. Destes, 14 morreram num Domingo de Inverno na cidade de Derry, trespassados por balas do Primeiro Regimento de Pára-quedistas do exército britânico. O seu único crime foi o de se manifestarem pelos direitos civis negados pelos ocupantes ingleses às populações independentistas da metade norte da ilha esmeralda, sob o olhar tantas vezes cúmplice do governo irlandês. Naquele dia marchavam especificamente contra as detenções sem julgamento.

A inocência das vítimas do Bloody Sunday foi negada por sucessivos governos britânicos, chegando inclusivamente ao ponto de fabricar um relatório (o relatório Widgery) que ilibava as forças inglesas de qualquer culpa no massacre. A verdade foi reposta esta tarde pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, num discurso no parlamento: “Em nome do nosso país, lamento profundamente (…) O que aconteceu foi injustificado e injustificável”. Cameron apresentava as conclusões do Relatório Saville, hoje divulgadas, e que ilibaram todas as vítimas de qualquer culpa no sucedido. Citando o Relatório:

* Todas as vítimas eram civis e estavam desarmadas
* Não foi emitido qualquer aviso antes de os soldados abrirem fogo
* Nenhum dos soldados disparou em resposta a ataques com pedras ou bombas incendiárias
* Alguns dos mortos e feridos estavam claramente a evacuar o local ou a socorrer os feridos ou outras vítimas
* Nenhuma das vítimas representava qualquer ameaça ou agiu de forma a justificar ser abatida
* Muitos dos soldados envolvidos mentiram sobre as suas acções

O “Domingo sangrento” não foi o único banho de sangue a marcar aquele terrível ano: a 21 de Julho, a brigada do I.R.A. em Belfast detonou 20 bombas, matando nove civis. É um acontecimento que serviu de “escudo” ao governo inglês, como os bombistas suicidas servem de defesa ao governo de israel sempre que assassina civis inocentes. Mas, em ambos os casos, o raciocínio está viciado: não se podem pôr nos pratos da balança os massacres cometidos por grupos terroristas e governos democraticamente eleitos e esperar que eles pesem o mesmo… A análise da BBC ao Relatório Saville é bem clara: “as decisões de um punhado de militares britânicos no Bloody Sunday ajudaram a criar o I.R.A. moderno”. Citando o Relatório: “O que aconteceu no Bloody Sunday fortaleceu o IRA Provisório, aumentou o ressentimento nacionalista e a hostilidade em relação ao Exército e exacerbou o conflito violento nos anos que se seguiram”.

Mais informações sobre os acontecimentos de 30 de Janeiro de 1972 e sobre o histórico dia que se viveu hoje nas ilhas britânicas nos sites do Irish Times (com uma detalhada cronologia), BBC e Bloody Sunday Trust. O Denver Post publica também um fantástico portfólio fotográfico sobre o tema.

Hoje, o país da minha filha pode dormir em paz. Fada beo in Éirinn.


1 Comments Add Yours ↓

  1. Rui Vasco Silva #
    1

    Ora bem, João: “não se podem pôr nos pratos da balança os massacres cometidos por grupos terroristas e governos democraticamente eleitos e esperar que eles pesem o mesmo… “. Nem mais.



Your Comment

You must be logged into post a comment.